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Truques ou Promessas?

31 de outubro de 2023 por
João Almeida

Miguel Pinto Luz apresentou vários exemplos das políticas implementadas em Cascais durante as Conferências do Estoril, que decorreram em setembro. Entre tudo o que foi dito, gostaria de sublinhar o seguinte: “Não há democracia sem mobilidade; não adianta investir em resposta se as pessoas não tiverem acesso a esta. Em Cascais, a mobilidade é gratuita. Investimos num bom serviço de cuidados de saúde que é gratuito 24 horas por dia, 7 dias por semana. Estamos a investir na Educação, primeiro nas escolas e alunos e agora no software. Com o Orçamento Participativo, temos uma obra a cada 0,5 km pensada e votada pelos cidadãos. Este próprio campus é o resultado desta visão colaborativa de bem comum e, finalmente, estamos a investir na sensorização que, articulada com Inteligência artificial, permite antever cenários para uma melhor decisão quanto à utilização do espaço público pelos cidadãos.”

No entanto, gostaria de destacar que, embora essas iniciativas possam parecer positivas à primeira vista, é importante analisá-las em detalhe e considerar a sua viabilidade e eficácia. A alegação de que “não há democracia sem mobilidade” é um ponto válido. No entanto, é fácil observar que a mobilidade gratuita em Cascais é uma iniciativa populista que ignora os desafios financeiros e operacionais associados a tal política. A gratuidade da mobilidade pode ser insustentável a longo prazo e pode afetar negativamente as finanças públicas, sem prestar um serviço que vá de encontro às necessidades dos munícipes, como é claramente verificável pelos inúmeros atrasos dos autocarros, assim como pela crescente escolha de viatura própria, como se constata pelos inúmeros congestionamentos no município e o aumento do tráfego no primeiro troço da A5.

Da mesma forma, o investimento em cuidados de saúde 24 horas por dia, 7 dias por semana é louvável, mas é essencial garantir que esse sistema seja economicamente viável e eficaz. Não se conhece até à data de hoje que utilização é feita dos ditos cuidados de saúde 24 horas por dia recorrendo às anunciadas cabines de saúde. O investimento na educação é um objetivo louvável, mas é importante ter mais detalhes sobre como esses recursos estão a ser alocados e se os resultados educacionais estão a melhorar como resultado desse investimento. Atendendo aos resultados das escolas de Cascais nos últimos anos, estas encontram-se infelizmente ano após ano a cair nos rankings, o que choca de frente com as afirmações de Pinto Luz.

Quanto ao Orçamento Participativo, a IL acredita no envolvimento dos cidadãos na tomada de decisões, mas é importante garantir que esse processo seja transparente e que os projetos selecionados sejam executados de maneira eficiente. Episódios como o Parque das Gerações, em que depois do projeto aprovado foram colocados inúmeros entraves ao início dos trabalhos, ou a utilização do orçamento participativo para fornecer equipamento a corporações de bombeiros, não demonstram que a gestão da autarquia seja guiada pelos critérios de transparência e eficiência.

Por último, a sensorização e a inteligência artificial podem ser ferramentas valiosas para melhorar a gestão do espaço público, mas é importante garantir que os dados sejam protegidos e que a privacidade dos cidadãos seja respeitada. E neste campo, mais uma vez, o executivo autárquico de que Pinto Luz faz parte não mostra que esteja atento a estas questões, pelo que consta da investigação do Ministério Público, onde está a ser investigada a alegada violação de emails e telemóvel do presidente da autarquia de Cascais, Carlos Carreiras por parte do famoso hacker Rui Pinto (fonte: Jornal ECO).

Em resumo, a IL encoraja a participação dos cidadãos e a inovação, mas também salienta a importância de avaliar cuidadosamente as implicações financeiras e operacionais das políticas implementadas. É fundamental encontrar um equilíbrio entre o idealismo e a viabilidade para garantir que as políticas locais sejam eficazes e sustentáveis a longo prazo e não apenas palavras ocas desligadas de qualquer realidade vivida todos os dias pelos munícipes.

Viva a crise política, Viva a democracia!